TRE/RN - Espaço cultural

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Acordo

Sheila Araújo

Estando os dois de acordo
fica criada nova sistemática
de esquecer amores indeléveis:
não te conheço mais,
assim como você também
Já me esqueceu.
Então ficamos assim
estranhos incomunicáveis,
em silêncio mútuo
e que os inumeráveis
meios de comunicação,
desde os ancestrais
até os ultra modernos
nos sejam tão estranhamente
Ineficazes ou ausentes,
que nem a mais condoída
e lacerante crise de saudade
nos faça a eles sucumbir.
Cumpra-se.

 

Alegria em gotas

Augusto Teles de Menezes

A chuva quando cai no Sertão
É  alegria em gotas
Esperança que deságua em açudes
Multiplicando peixes
Preparando a terra
De onde brotará a comida
E o sustento de muita gente.

Com o povo nas ruas,
A correr e a gritar
A chuva é festejada
Como Deusa da abundância
Que se esparrama e se espalha
Anunciando mais um ano de fartura.

 

Desejo, paixão e fogo

Samuel Duarte

Saber que o desejo que se senti é paixão
Que a presença do olhar apenas não basta;
Se faz necessário o toque, o entremesclar.

Saber que o desejo que se senti é fogo
Que a distância sufoca o corpo mais que o espírito,
E que sem o calor do outro não existe vida.

Querer além das roupas, além do tempo,
Querer além da distância e da própria vida.
Querer, só querer não basta,
Precisa ter, sentir arder,
Precisa ser e viver a cada instante,
A cada respirar, a cada olhar;
É ter a certeza que cada encontro vai ser eterno,
Pois nem em toda eternidade cabe essa paixão.

 

 

 

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Os óculos e o tempo

Renato Vilar


“Os meus olhos vibram ao te ver, são dois fãs, um par
Pus nos olhos vidros pra poder, melhor te enxergar”
Nando Reis



Não é por que as meninas do leblon não olham pra mim, nem por falta de colírio, muito menos pra ficar charmoso como a moça da canção de Roberto. A realidade é cruel mas é real: é por força dos “enta”. Ou eu encompridava os braços ou assumia a quilometragem já rodada tempo afora, e dava uma forcinha aos olhos cuja sintonia fina parece que foi para as cucuias.
Era um tal de afastar papel, franzir a testa, espremer o olho pra ver se focava aquela letra que parecia fugir dos seus limites, aquele 6 que teimava em virar 8. Vovô viu a uva, mas dependendo da distância, duvido que ele tenha contado quantas tinha no cacho.
Logo eu que me gabava de ter uma visão perfeita, lia tudo e a qualquer distância ou iluminação, não podia ser. Mas era. A visão perfeita perdeu-se entre as folhas do calendário e cedeu gentilmente lugar aos vidros corretores.
Parece que é tempestade em copo d’água, ou frescura, mas assim como soutien, os primeiros óculos não dá pra esquecer. A correção é pouca, embora em mão dupla – pra longe e para perto. Por isso o bicho é cheio de complicações. É um tal de multifocal, nome que, não sei por que, me lembra aqueles caleidoscópios com as suas imagens em várias facetas.
Tô na etapa adaptação. Enquanto escrevo este texto já tirei e coloquei a geringonça na cara umas trocentas vezes e não encontro, entre os multi, um foco ideal para a distância entre a tela e os olhos. Nem longe nem perto. A cabeça tá parecendo uma lagartixa procurando o foco e o andar de uma garça com medo de errar a altura de algum batente. Ou seja, uma mistura de louco e bêbado.
Assim é a lei da vida. Fazer o que? Adaptar-se. Depois de velho ter que reaprender a ver, a procurar o foco de qualquer coisa e ter que fazer essa conta contando com um apêndice externo que não fazia parte de mim. “Eu não nasci de óculos, eu não era assim…” Juro que não era. Nem dos de sol eu gostava, por qualquer pretexto tirava. Inclusive eu tinha a mania de tirar os óculos escuros para escutar melhor o que alguém estava falando, como se tico e teco não dessem conta de ouvir e acomodar os óculos nas fuças.
Mas eu consigo, quem não pode com o inimigo une-se a ele, já dizia alguém – que devia usar óculos. Seguirei eu, meus óculos e o tempo procurando o foco do futuro e encontrando na nitidez de cada nova experiência uma luz para realçar os contornos da vida.